Por Adriana Fernandes, para o Estadão.

Não foram somente as comorbidades de saúde que deixaram as pessoas mais vulneráveis durante a pandemia da covid-19. Os brasileiros que vivem nos municípios com maior acúmulo de comorbidades socioeconômicas, como baixo acesso da população à água e esgoto, densidade dos domicílios (muitas pessoas dividindo o mesmo cômodo) e diferença de renda entre mais ricos e mais pobres, ficaram mais suscetíveis às consequências da pandemia, especialmente em relação à taxa de óbitos por 100 mil habitantes.

Esse grupo de cidades ainda se destaca negativamente no quesito infraestrutura, porque mais de um terço tem abastecimento de água e tratamento de esgoto inadequados © Nilton Fukuda/Estadão Esse grupo de cidades ainda se destaca negativamente no quesito infraestrutura, porque mais de um terço tem abastecimento de água e tratamento de esgoto inadequados

É o que revela pesquisa da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), a qual o Estadão teve acesso, que traz um mapeamento da pandemia nos 5.570 municípios brasileiros e revela uma nova geografia para o País: a da crise da covid-19.

Um dos principais achados da pesquisa mostrou que os municípios mais pobres, com menor renda, não necessariamente foram os mais afetados pela covid-19, mas as cidades onde há maior desigualdade, com muitos ricos e muitos pobres convivendo no mesmo espaço.

O pior cenário está em municípios com média de 27 mil habitantes, um grupo de 459 cidades cujos indicadores socioeconômicos e territoriais as deixaram mais vulneráveis aos efeitos negativos da pandemia do que a média do País. Nesse grupo, estão municípios como Chapadinha (MA), Nova Araçá (RS), Pimenteiras do Oeste (RO) e Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). A taxa de óbito foi de 39,8, isto é, a relação entre o número de mortes por 100 mil habitantes, mais do que o dobro da média nacional.

Nessas cidades, metade dos domicílios tem quartos compartilhados por mais de duas pessoas. Esse grupo de cidades ainda se destaca negativamente no quesito infraestrutura, porque mais de um terço tem abastecimento de água e tratamento de esgoto inadequados (enquanto a média nacional é 9%). É um grupo bem heterogêneo: tem município com 2 mil habitantes e cidade com 79 mil.

O tamanho da população dos municípios e a distância em relação às capitais também impactam no avanço da doença: cidades mais populosas e mais próximas das grandes cidades tendem a apresentar pior desempenho em termos de casos e óbitos pela doença. O melhor cenário pode ser observado nos municípios que têm o menor contingente populacional (cerca de 7 mil habitantes): baixo registro de casos e de mortes por covid-19.

A pesquisa dividiu os municípios em sete regiões e avaliou sete indicadores socioeconômicos: infraestrutura, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), auxílio emergencial, densidade das casas (quantas pessoas dormem no mesmo cômodo), renda per capita, e vulnerabilidade à pobreza e coeficiente de Gini (que mede o grau de concentração de renda). Um dado que chamou a atenção no estudo é que em 134 cidades brasileiras oito em cada dez pessoas têm com renda domiciliar inferior a R$ 255 por pessoa.

A pesquisa cunhou o termo comorbidade social, usando como referência a área de saúde, para mostrar que a coexistência de múltiplas patologias num determinado território desencadeou um duplo processo de hipervulnerabilização, que é simultaneamente socioeconômica e territorial.

Um exemplo típico é o dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro, que são os mais populosos do Brasil. O rendimento médio de cada habitante é o maior do País (R$ 1.504), porém esses recursos não são divididos de maneira equitativa entre a população, o que faz com que o coeficiente de Gini também seja o maior de todos.

Uma das autoras da pesquisa, Janaina Lopes Pereira Peres conta que a ideia do trabalho surgiu depois que se mostrou equivocada a percepção, no início da pandemia, de que o vírus era “democrático” e que todos estavam no “mesmo barco”. “Não demorou muito para a pandemia mostrar que muitos estavam enfrentando esse mar numa jangadinha e outros, num transatlântico”, diz. Segundo ela, é o que estudo quis comprovar com dados qualitativos e olhando para a pandemia de forma multidimensional. “Não é simples dizer assim: onde a renda é menor, morre mais gente”, ressalta.

Para o coordenador-geral de pesquisa da Enap, Cláudio Shikida, os dados mostram uma realidade muito mais complexa e grave, que lança um desafio maior para o gestor público de olhar para essas comorbidades. “Não tem aquela coisa de região Sul e Sudeste muito bom e Norte e Nordeste muito ruim. Dentro das próprias regiões, tem uma riqueza de situações”, pondera.

Relação entre auxílio emergencial e a covid

A pesquisa da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) também encontrou relação direta entre auxílio emergencial e incidência da covid-19: quanto maior a quantidade e o valor médio de auxílios concedidos, maiores também são as taxas de casos e óbitos por 100 mil habitantes.

Como os dois indicadores são de vulnerabilidade, o resultado mostra que a falta de recursos impacta na maior difusão da doença e dos óbitos. Isso ocorre principalmente no grupo de cidades que reúne os municípios mais populosos do Brasil e também com maior grau de comorbidades sociais.

A densidade dos domicílios pode dificultar ou mesmo impossibilitar, em alguns casos, o atendimento às recomendações de isolamento e distanciamento social. No Brasil, pouco mais de um quarto da população é composta por casas com densidade alta: mais de duas pessoas por dormitório. Nos municípios com população média aproximada de 27 mil habitantes, esse porcentual chega à metade de domicílios com quartos compartilhados por mais de duas pessoas e esse dado parece se relacionar com a situação da pandemia.

O estudo cruzou informações de casos e óbitos por covid-19 nos 5.570 municípios brasileiros com indicadores socioeconômicos no período de 25 de fevereiro a 31 de julho de 2020. Os dados completos serão divulgados nesta segunda-feira, 25.