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Estudos sobre cloroquina foram fraudados para obter financiamento.

22/01/2021

Didier Raoult fraudou resultados sobre cloroquina para obter financiamento do governo, denuncia TV francesa.

Vale tudo por dinheiro? Erros metodológicos considerados pelos mais renomados cientistas da Europa como “grosseiros”. Um laboratório de pesquisa onde a regra é o autoritarismo, o medo e as ameaças. Tudo para ter o maior número possível de publicações e um financiamento anual de 10 milhões de euros?

Segundo reportagem veiculada nesta semana pelo canal de televisão francês M6 sobre “o mistério Didier Raoult”, por trás da defesa da cloroquina para tratar Covid-19, escondem-se métodos nada científicos, condições de trabalho “deploráveis” e conflitos de interesse. E sobretudo, muito dinheiro.

A investigação durou quatro meses e ouviu cientistas que trabalharam no laboratório IHU (Instituto Hospitalar Universitário) de Marselha (França), dirigido desde 2011 pelo defensor da cloroquina. Também foram ouvidos representantes da comunidade médica, que hoje o processa por considerar seu tratamento para a Covid-19 como charlatanismo.

A reportagem relembra como o médico desconhecido de uma maioria de franceses “entrou em cena” na defesa da cloroquina e desmonta a farsa.

“Uma figura contestada que apareceu durante a crise, o professor de Marselha Didier Raoult, gênio incompreendido para uns, um sábio louco para outros”, resume Bernard de la Villardière, apresentador do programa.

Deturpação de fonte

Em fevereiro de 2020, depois de minimizar a pandemia, Raoult vem a público numa coletiva de imprensa improvisada anunciar a “descoberta”: “os resultados de um estudo chinês acabam de sair: a cloroquina é eficaz contra o coronavírus”.

“Na época, o professor Didier Raoult minimiza a periculosidade do medicamento: ‘a infecção respiratória mais fácil de tratar’. Atenção, não haverá mais cloroquina nas farmácias em breve’”, brincava o professor.

Ele citava um estudo da China, que, segundo ele, provaria a eficácia do tratamento. “O estudo chinês citado por Raoult não é verdadeiramente um estudo científico”, afirma a reportagem.

“Quando Didier Raoult anuncia o efeito da cloroquina, ele explica que os chineses encontraram um medicamento. Todos fomos procurar a fonte. E a fonte era, na verdade, muito pobre. Era um relatório de uma reunião”, afirma Renaud Piarroux, professor de doenças infecciosas, e que trabalhou por muitos anos com Didier Raoult.

A referência é “Breakthrough: Chloroquine phosphate has shown apparent efficacy in treatment of COVID-19 associated pneumonia in clinical studies” (fosfato de cloroquina mostrou eficácia aparente no tratamento de Covid-19 associada à pneumonia em estudos clínicos), de Jianjun Gao, Zhenxue Tian e Xu Yang. “Na verdade, trata-se de um relatório que fala apenas em eficácia aparente”, diz a reportagem.

“Apesar da superficialidade da publicação chinesa, Didier Raoult aposta tudo na hidroxicloroquina, molécula próxima da cloroquina”.

“Eles diziam que a cloroquina funcionou em 400 pacientes, mas isso não é suficiente para fazer disso um resultado científico”, diz o professor Renaud Piarroux.

Um estudo rápido demais

Na entrevista à reportagem do Enquête Exclusive, Renaud Piarroux observa que o primeiro estudo sobre a Covid-19 publicado por Didier Raoult, em março do ano passado, não possuía número suficiente de pacientes para ser conclusivo.

“No momento em que ele propõe a hidroxicloroquina, na verdade não havia muitos doentes. Então ele propõe que o laboratório que ele dirige publique rapidamente uma solução em torno do medicamento que ele pensa ser eficaz, com base em 25 pacientes”.

“O primeiro estudo científico de Didier Raoult sobre a hidroxicloroquina é realizado em um tempo recorde. Ele submete o projeto de pesquisa, ele obtém a autorização e no dia 20 de março sai uma publicação”, afirma.

Dos ensaios clínicos à publicação do artigo de Raoult, apenas duas semanas se passaram. “Um delay de 14 dias entre os ensaios clínicos e a publicação de resultados é extremamente curto e suscita questionamentos”, diz a reportagem.

Segundo a investigação, questionável também é a escolha do meio. “Raoult decide fazer sua publicação numa revista confidencial (voltada para um público restrito de pessoas), a International Review of Microbial Agents, e não numa revista de referência como The Lancet ou The New England Journal of Medicine”, afirma o programa.

“Ele decide publicar o mais rápido possível e fazer uma comunicação em torno. Será que ele se disse que não funciona tão bem assim? Não é lógico”, afirma Piarroux.

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