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Porque não sou “70%”, “juntos” ou qualquer coisa parecida

04/06/2020
Artigo de Fernando Horta, graduado em História pela UFRGS e com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília

Uma das maiores mentiras do século XX é a de que podemos separar “política” da “economia”. Consolidou-se uma visão advinda da Guerra Fria de que há assuntos “técnicos” e assuntos “políticos”. Sobre os políticos caberia “discussão”, “liberdade de opinião e pensamento” e até – veja só – uma certa democracia com um pouquinho de participação popular. Nos assuntos “técnicos”, aí opinam os “técnicos”.

Esta falsa dicotomia foi a tônica de todo o século XX. É uma releitura pobre da diferença weberiana entre “ciência” e “política” como duas vocações diferentes. Um é o saber “preciso”, “exato” e “científico”. A outra é o ramo do “achismo”, da “opinião” e das “disputas políticas”.

Daí que algumas pessoas fazem uma escolha bastante política sobre o que colocar na cesta dos assuntos “técnicos” e na dos “políticos”. E querem enfiar goela abaixo esta divisão de coisas que já é – em si mesma – uma decisão política ditatorial tão ruim quanto o próprio fascismo.

De repente, 70% das pessoas no Brasil passaram a fica incomodadas com Bolsonaro. Pergunte-se: que informações não existiam em 2016 para que esta mesma “frente ampla” não tenha sido pensada lá atrás, quando o país tinha na memória recentíssima crescimento, inclusão e distribuição de renda?

O que não estava dito ou posto em 2016 – e que passou a estar nos últimos 30 dias – que pode ter o condão de fazer milhões de pessoas agora se juntarem para formar “70%”?

A resposta desta pergunta é exatamente o motivo de eu não aderir a movimentos políticos que estão se aproveitando do desespero para separarem Guedes de Bolsonaro.

Estes “neopreocupados” com o fascismo querem um governo Bolsonaro sem Bolsonaro. Um governo Bolsonaro sem Bolsonaro é um governo Mourão-Guedes. Em que continue a destruição econômica que nos trouxe até aqui, a criminosa concentração de renda, o desmonte da educação e da saúde públicas, a “guerra contra a corrupção” como Moro e Dallagnol faziam e que nos livremos apenas da mixórdia bolsonarista e seus arrotos fascistas.

Em vez de falarmos em “frente ampla”, precisamos discutir a “agenda mínima” político-econômica para o Brasil.

Eu não aceito unir forças com ninguém que não esteja disposto a abraçar o projeto de renda mínima cidadão, o fortalecimento da educação e saúde públicas e a contenção completa dos abusos de militares e juízes.

Guedes e Bolsonaro são duas metástases do mesmo câncer. Irmãos siameses na perversidade e ignorância. Defender as reformas neoliberais é defender o retorno do fascismo em pouco tempo. Trocar Bolsonaro por Mourão é seguir o golpe “banho-maria” que vivemos até que o dia volte a virar 21 anos.

Hoje te querem como bucha de canhão contra Bolsonaro, o inaceitável. Amanhã você será o próximo “inaceitável” ou, pior, a próxima bucha de canhão.

O jogo das elites é imoral, é asqueroso e não descansa nunca.

Que se matem contra Bolsonaro, eu só me movimento se o preço da batalha for um mundo melhor, e não apenas um mundo sem Bolsonaro.

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