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Quem está botando fogo na Amazônia, presidente? 

24/08/2019

Dia do Fogo em Novo Progresso (Foto: Jornal Folha do Progresso): fogo em terras juquiradas próximas à cidade.

Por Marina Amaral, co-diretora da Agência Pública, em sua newsletter semanal

Uma semana antes das queimadas da Amazônia se tornarem assunto global, o sul do Pará pegou fogo. Em 10 de agosto, como reportou Fabiano Maisonnave na Folha de S. Paulo, o Inpe registrou, de um dia para o outro, um aumento de 300% em focos de incêndio no município de Novo Progresso. Em Altamira, também no Pará, o salto foi ainda maior: 734% entre sexta e sábado. No domingo, sem nenhuma operação policial, o fogo aumentou.

Cinco dias antes, o jornal Folha do Progresso – uma publicação local – trazia uma informação que se revelou crucial depois que a fumaça dos despojos da floresta fez todo mundo chorar: os produtores da região haviam marcado uma data para “acender fogos em limpeza de pastos e derrubadas” em protesto contra a fiscalização ambiental. Adivinhem qual? 10 de agosto. Exatamente o dia em que a Amazônia ardeu.

Os produtores se diziam “amparados pelas palavras do presidente [Bolsonaro]”, segundo o jornal. Já os que sofriam com a fumaça e a destruição da floresta, puxada por Altamira e Novo Progresso, ficaram ao léu.

Dois meses antes, o Ibama havia desistido de instalar bases de fiscalização na região, como fazia em todos os períodos secos, porque o governador do Pará, Helder Barbalho, havia suspendido o apoio da PM à operação.

Isso, depois de funcionários do Ibama serem hostilizados em violento protesto de madeireiros ilegais em Placas, a 200 quilômetros de Novo Progresso.

O Ibama, que enfrenta as hostilidades presidenciais desde o início, é também o órgão mais prejudicado pelo corte de verbas do Fundo Amazônia – e não as ONGs como diz Bolsonaro para inflamar a torcida.

Já o Inpe, que registrou os focos de queimada e foi esculhambado por presidente e ministro do Meio Ambiente ao relatar uma alta de 278% do desmatamento da Amazônia em julho, provavelmente será substituído por uma empresa privada dos Estados Unidos, que já ganhou um edital prontinho para se encaixar.

Bolsonaro se diz nacionalista, incendeia as redes com paranoia xenófoba, e quer entregar aos gringos o monitoramento da Amazônia.

Comemora de forma estridente os cadáveres produzidos pela polícia, mas condecora milicianos e apoia os madeireiros e grileiros que atuam como organizações criminosas. E não apenas pela derrubada da floresta: eles ameaçam e matam indígenas, quilombolas e agricultores familiares que há muito enfrentam o fogo e a violência em suas comunidades e defendem a mata com a própria vida, como mostram as reportagens do Amazônia Sem Lei.

Ah, mas quem botou fogo na Amazônia, diz o presidente, foram as ONGs internacionais. Bom mesmo para preservar a floresta é abrir terras indígenas para o agronegócio e mineração e armar os fazendeiros e seus pistoleiros.

Mas tome cuidado, presidente, mais do que turvar a visão, a fumaça que vem da Amazônia parece estar abrindo os olhos dos brasileiros – ao menos daqueles que se importam. São esses que sempre fazem a diferença.

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