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Cinco soluções para o Brasil, pela cabeça privilegiada de Antonio Prata

01/11/2016
antonio-prata1.Democratizar a corrupção. O maior problema do Brasil não é que se rouba muito, é que se rouba pouco. Ou melhor: enquanto o 0,1% no Land Rover desvia bilhões, os 99,9% que tomam banho de poça no ponto de ônibus se contentam com as migalhas que conseguem agarrar.
Outro dia, a válvula da descarga estava vazando. Ari, o zelador, deu uma olhada, foi ao depósito da esquina, comprou uma borrachinha e me trouxe a nota de R$ 7,50. No dia seguinte, fui comprar pregos no mesmo depósito: a borrachinha custava R$ 3,50. Não senti raiva do Ari, senti uma profunda compaixão. Eu vou aos EUA e trago dois iPads na mala, moqueados entre a roupa suja: pilho assim uns R$ 1,5 mil da Receita Federal. Eduardo Cunha, numa única negociata, recebe R$ 4 milhões de Fernando Baiano. Enquanto ao Ari, injustiçado Ari, só são dadas condições de desviar R$ 4 da borrachinha do meu lavabo. (A Brahma no Bar e Lanches Sandoval tá R$ 7).
Só vamos realmente dividir renda neste país quando democratizarmos a bandalheira. O melhor é que pra isso não precisa ensinar a ninguém as quatro operações ou as regras de acentuação dos ditongos: o brasileiro pobre já sabe roubar como o rico, ele só precisa de igualdade de condições.
2. Há uma década se fala em trazer um técnico estrangeiro para a Seleção. E por que não trazer políticos estrangeiros para a nação? Barack Obama está se aposentando. Angela Merkel certamente gostaria de passar uns tempos nos trópicos. Mujica é nosso vizinho. O PSDB quer o parlamentarismo? Ótimo, que compremos logo um parlamento inteiro. Da Inglaterra. Da Noruega. E se nem isso funcionar, só vai ter um jeito: Guardiola para presidente. (Quem duvida que seis meses de tiki-taka na economia – com Iniesta na Fazenda – reanimariam a nossa combalida indústria e criariam uma saraivada de empregos?)
3. Vamos consultar um numerólogo. Assim como Jorge Ben estourou repetindo o começo do nome no fim, virando Jorge Benjor, quem sabe não encontremos nosso caminho ao nos rebatizarmos Brasilbra? Ia atrapalhar um pouco a métrica de Aquarela do Brasilbra: “Brasilbra, meu Brasilbra Brasilbreiro”, mas o que são uns versos tortos ao lado da felicidade de 200 milhões de patrícios?
4. Fuga pro Uruguai. Eles têm uma esquerda que funciona, direitos civis que funcionam, um vinho que funciona, uma carne que funciona, uma maconha que funciona e uma linda capital – que funciona – praticamente vazia a nos esperar.
5. Caso nenhuma das soluções anteriores dê certo, apresento aqui a saída derradeira, saída que serve não só para países em crise política e econômica como para pessoas em crise existencial, emocional, profissional etc e tal: vamos encher a cara. Vamos pegar o que nos resta das reservas nacionais e promover um churrascão contínuo com caipirinha, cerveja, Catuaba e Cynar. Mamemos nas tetas do Estado até que o déficit hepático seja maior do que o déficit orçamentário. 
Neste dia, já conformados com o fato de que isso tudo não passou de um sonho intenso, de um raio vívido de amor e esperança ao som do mar e à luz do céu profundo, nos deitaremos eternamente em berço esplêndido; as margens fétidas do Ipiranga já não ouvirão mais brado algum e o florão da América, em sempiterno silêncio, será iluminado pelo sol do novo mundo. Pátria amada, hic!, Brasil!

Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles ‘Meio Intelectual, Meio de Esquerda’ (editora 34). Ele tem sangue azul, é filho de Mário Prata, um dos escritores contemporâneos de calibre máximo, privativo das forças revoltadas da Nação.

Nota da Redação:

Sobre o Uruguay, que conheço bem, é a melhor alternativa. Pena que não cabem nem 10% dos brasileiros por lá.

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