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Monsanto terá que indenizar produtor de algodão do Oeste baiano

09/10/2014
Walter Horita, em foto de Carlos Alberto Reis Sampaio

Walter Horita, em foto de Carlos Alberto Reis Sampaio

Por Fabiana Batista, do Valor Econômico

Após pagarem US$ 240 por hectare em royalties à Monsanto para se livrar da lagarta helicoverpa, alguns produtores de algodão do oeste baiano que usaram no último ciclo, o 2013/14, variedades de sementes da empresa com a nova tecnologia resistente a lagartas, a Bollgard II RR Flex (conhecida com Bt2), depararam-se com um fato inesperado. Ao beneficiar o algodão, em vez de 40% de fibra, obtiveram um percentual bem mais baixo: em média de 35%.

Eles agora negociam com a multinacional uma indenização. A Monsanto não revelou a qual montante deve chegar o ressarcimento, mas cálculos do mercado indicam que deve ficar entre R$ 10 milhões e R$ 12 milhões, um pouco abaixo dos cerca de R$ 15 milhões que a empresa teria faturado na mesma safra com os royalties cobrados da tecnologia na Bahia.

O gerente de marketing de algodão da Monsanto, Eduardo Navarro, disse que a empresa acompanha os produtores que usaram as sementes desde que apareceram os primeiros relatos, ainda em julho deste ano. A safra 2013/14 marcou a estreia no país dessa tecnologia, que foi incorporada em quatro variedades produzidas pela Delta Pine, empresa de sementes controlada pela múlti.

Foram produzidas e vendidas sementes suficientes para plantar 60 mil hectares com a tecnologia em 2013/14. Em torno 31 mil hectares foram cultivados em Mato Grosso e 29 mil, na Bahia – respectivamente, o primeiro e o segundo maiores produtores nacionais da pluma.

Dessas quatro variedades, afirmou Navarro, duas trouxeram menor rendimento de pluma estritamente no oeste baiano, a DP 1228 e a DP 1231. Elas foram plantadas em 80% dos 29 mil hectares cultivados com a tecnologia Bt2 na Bahia, conforme a Monsanto. O esperado era um rendimento entre 39% e 40% de pluma. “Mas, em média, o obtido nesses casos ficou entre 35% e 36%”.

Nas contas da multinacional, a perda afetou 40 agricultores do Estado. Diante da situação, segundo Navarro, a Monsanto assumiu toda a responsabilidade pelo ocorrido. Ele disse que já foi fechado acordo com produtores que respondem por 60% da área cultivada com a DP 1228 e a DP 1231. “Nossa preocupação era deixar claro ao produtor que o problema foi nosso e que estávamos lá para atender suas expectativas”, afirmou o executivo.

Ele garantiu que os produtores que fizeram o acordo até o momento se mostraram satisfeitos. Isso, apesar do parâmetro de negociação adotado pela empresa de ressarcir a diferença de rendimento da pluma – de 39% para 35% – mas considerar no cálculo da indenização a redução de custos obtida pelo produtor com o uso da tecnologia.

Como é resistente à lagarta helicoverpa e controla a incidência de plantas daninhas, a Bt2 demanda uma aplicação bem menor de defensivos agrícolas, do que as variedades convencionais -, produtores que usaram a Bt2 não precisaram fazer nenhuma aplicação de inseticida, quando, com variedades convencionais, precisam realizar de 25 a 30 aplicações para combater a lagarta.

Mas justamente porque pagaram os royalties, os produtores consideram injusto descontar do valor a ser ressarcido a economia de custos obtida com a tecnologia – apesar de alguns estarem fechando acordo mesmo assim devido ao relacionamento já estabelecido há anos com a multinacional.

Nos cálculos feitos com os produtores afetados, a Monsanto verificou que, na média, mesmo com rendimento de pluma menor, o produtor teve rentabilidade 15% maior com a tecnologia, na comparação com variedades convencionais, segundo Navarro. “Foi essa lógica que foi levada para a mesa de negociação”, disse.

Entre os que já fecharam acordo com a multinacional, está o produtor Walter Horita, um dos maiores da Bahia. Em torno de 10% de sua área total com a pluma, de 37 mil hectares, foi cultivada com a tecnologia resistente à helicoverpa. Após o beneficiamento, Horita verificou um rendimento de pluma de 35%, uma queda de 12,5% em relação ao esperado. O produtor disse não se sentir confortável para revelar as condições do seu acordo. Apenas afirmou que não conseguiu obter o ressarcimento de todo os 12,5% de perda de rendimento.

Horita decidiu adotar a nova tecnologia em 10% da área depois de registrar grandes perdas no ciclo 2012/13 em decorrência do surto da helicoverpa. Naquela safra, além da perda de produtividade de 20%, a praga lhe rendeu um custo adicional de US$ 300 por hectare com inseticida. “Todos os produtores buscaram variedades resistentes à lagarta no ano seguinte. Eu só plantei 10% porque não tinha mais semente disponível. Caso contrário, teria plantado mais naquele momento”, disse.

Questionado sobre se usará novamente a tecnologia no ciclo 2014/15, o produtor disse que é possível se “blindar” contra a lagarta combinando tecnologias. “Há outras empresas que oferecem materiais com a mesma resistência, e rendimento de pluma superior, de até 45%”, observou o produtor.

Navarro, gerente de marketing de algodão da Monsanto, disse não acreditar que o episódio tenha arranhado a imagem da tecnologia Bt2. “Os produtores com quem negociamos até agora se mostram satisfeitos com o acordo. Muitos querem continuar plantando essa variedade, pois, mesmo com o menor rendimento de pluma, tiveram rentabilidade maior”, garantiu.

A multinacional já informou que não vai retirar as variedades DP 1228 e a DP 1231 do mercado, apenas “reavaliá-las”. Para a safra 2014/15, cujo plantio começa em novembro deste ano, a americana terá oferta para atender 100% da área de algodão do país, segundo Navarro. Além da Delta Pine, que manterá no mercado as quatro variedades já lançadas em 2013/14, outras oito variedades de outras sementeiras licenciadas estarão disponíveis.

De acordo com Navarro, o problema não é a tecnologia, mas o germoplasma (genética) das duas variedades DP 1228 e DP 1231. A multinacional está estudando o que pode ter causado o menor rendimento de pluma no oeste baiano. Conforme o executivo, entre as hipóteses levantadas está a de variações climáticas atípicas.

Houve em novembro de 2013 um déficit hídrico no oeste da Bahia, combinado com noites mais frias que o padrão climático, ou seja, com temperaturas abaixo de 15 graus Celsius. Essas noites mais geladas se repetiram entre março e maio deste ano. “Essas condições não foram observadas durante os três anos de testes aos quais foram submetidas essas variedades”, afirmou Navarro.

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