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Brasil – Reflexões sobre a injustiça.

11/04/2014

Por Joel Ferreira Ribeiro, advogado

Mais uma vez fui convidado para escrever neste jornal. Inicialmente pensei em exaltar a importância político-econômica do município de Luiz Eduardo Magalhães, por ocasião de seu aniversário que será comemorado no dia 29 de março próximo. Embora sua tenra idade destaca-se como líder na região do oeste baiano, despontando com significativos índices na produção nacional de grãos e no uso de inovações tecnológicas a guisa de maior eficiência para o agronegócio e desenvolvimento humano.

Todavia, embora a importância da data – aniversário da cidade – o brilho da festa é ofuscado diante de tantas manifestações, passeatas e movimentos de toda a ordem que espocam em cada rincão do Brasil. Esses levantes em busca de, simplesmente, melhores dias para todos, trazem à tona a flagrante INJUSTIÇA que se colore dos mais variados matizes; que está arraigada em nosso país desde sempre; que entra governo e sai governo e nada se modifica.

A INJUSTIÇA que ora abordo tem uma conotação difusa tendo em vista as necessidades prementes do cidadão que são sistematicamente adiadas ou ignoradas por nossos governantes.

O governo federal adotou como seu lema midiático a expressão “BRASIL UM PAÍS DE TODOS”. Indaga-se. Todos quem? Num país com a maior carga tributária do planeta e que presta serviços como se fosse uma republiqueta quebrada, evidentemente que não é um país de todos, mas um país de poucos.

As INJUSTIÇAS se avolumam a cada instante, enquanto isso o dinheiro público é mal versado e desviado com pagamentos espúrios de comissões, superfaturamentos, corrupção, licitações fraudulentas, e até mesmo o transporte aéreo para político influente fazer implante de cabelo em Recife.

Que país de todos é esse, onde as pessoas sucumbem às dezenas, diariamente, nos corredores dos hospitais, nos assaltos das esquinas, nas favelas dominadas pelo tráfico de drogas, na verdadeira guerra civil na qual estamos enterrados até o pescoço?

Que país de todos é esse que se dá ao disparate de gastar, por exemplo, 1,6 bilhão de reais para erigir um estádio de futebol em Brasília, e se preparando para moer mais cerca de 300 milhões nas obras ao seu redor? Brasília sequer tem uma equipe de futebol.

A Justiça, por Marília Chartune.

A Justiça, por Marília Chartune.

Em situação completamente oposta, o Hospital de Base, o maior da rede pública do Distrito Federal, que dista no máximo 1 Km do Estádio Nacional, está em ruinas e se decompõem juntamente com os cadáveres de seus corredores, que protagonizam um quadro digno de pinceladas dantescas e que retrata o antagonismo das prioridades governamentais e das necessidades reais.

Que país de todos é esse em que o “padrão FIFA” se impõe sobre a soberania nacional modificando a nossa legislação para facilitar a incineração de dinheiro público sem a regular fiscalização dos órgãos competentes?

Que país de todos é esse que não tem pudor de calcinar quase 700 milhões de reais para a construção de uma “Arena” em Manaus, enquanto a população manauara morre afogada, não no rio Amazonas mas nas mazelas e injustiças sociais que se arraigaram nas entranhas de nosso Brasil?

Que país de todos é esse em que o ladrão de galinhas recebe os rigores da lei e, a mesma lei é violentada para permitir que uma camarilha de malfeitores de gravatas desfrute de benesses e tratamento diferenciado no cumprimento de suas penas, como noticiado em revista semanal de circulação nacional?

Historicamente o Brasil, ou melhor, nossos governantes, nunca tiveram uma preocupação com o ser humano que compõe o nosso povo, a propósito, o saudoso antropólogo e escritor Darcy Ribeiro dizia que o Brasil tem o hábito de queimar gente: “O Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gente. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois queimando milhões de negros. Atualmente estamos queimando, desgastando milhões de brasileiros mestiços”.

Darcy Ribeiro morreu há vinte anos e a colossal fogueira de queimar gente continua ardendo e com tanto combustível que transformaria Tomás de Torquemada – o “foguista” do Santo Ofício – num réu em processo da competência de juizado especial.

A INJUSTIÇA ganha os holofotes sob diversas facetas e necessidades, sejam de cunho social, econômico ou judiciário, e isto porque a JUSTIÇA é falha, tardia, se equivoca e resignada, e quando ela é feita não merece os refletores, eis que é cega – não precisa deles – essa é a sua função.

Com o passar do tempo os brasileiros, antes guerreiros foram assumindo uma postura cordata, frouxa, uma letargia coletivizada e indiferente às desigualdades brutais que assolam todo o nosso território e cidadãos.

O Brasil tem sim um passado de guerras, revoluções e levantes como a Revolta dos Cabanos que irrompeu em Pernambuco e Alagoas em 1832/35; a Cabanagem em 1835/40 a mais sangrenta de todas as revoluções do Império e que proclamou a independência do Estado do Pará; a Revolta dos Malês, em 1835 na Bahia; A Sabinada, também na Bahia em 1837, que proclamou a independência da República Baiana; a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, 1835/45, foi a revolta que mais ameaçou a integridade do território brasileiro foi declarada a República Rio-Grandense; em 1842 Teófilo Ottoni liderou em Minas Gerais a Revolução Liberal; a Balaiada ocorrida no Maranhão em 1838, e tantas outras.

Ocorre que depois veio uma paz inebriante que nos colocou em um sono profundo, ao ponto de o povo estar alheio às articulações pró-república, tramadas à sorrelfa por Benjamin Constant e Francisco Glicério o que desaguaria na queda do Império.

Aliás, a proclamação da República em 1889 foi acidental, como escreveu à época o jornalista francês Max Leclerc: “A revolução está terminada e ninguém parece discuti-la. Mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo nenhum a intenção de faze-la e há atualmente na América um presidente da República à força (…) Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto (Visconde – Chefe de Gabinete do Império). A Monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro, Ninguém levantou um dedo para defende-la”.

Agora parece que o gigante despertou de uma hibernação quase glacial, inicialmente com o movimento das DIRETAS JÁ e recentemente com as manifestações que se agigantam em todos os cantos e eclodem como furúnculos trazendo à luz a podridão sistêmica que domina o cenário nacional.

Por seu turno, o governo do “País de todos” se omite pateticamente buscando elaborar às pressas uma legislação fascista e antidemocrática visando amordaçar a qualquer preço o grito das ruas.

Mormente os dramas nacionais e os dias cinzentos que se descortinam e se avizinham encerro cumprimentando a cidade aniversariante. Parabéns Luís Eduardo Magalhães!

2 Comentários leave one →
  1. Cemat permalink
    11/04/2014 20:13

    Joel,enquanto as leis do Brasil continuarem com as leis da idade da PEDRA,nada mudará, e os deletérios mandatário do Brasil não desejam mudar as leis.

  2. Santiago permalink
    11/04/2014 22:34

    Um texto com muita propriedade que faz um raio x de nossa realidade, é lamentável e vergonhoso que nossos governantes tentem transformar o Estado em uma ditadura velada na contramão da democracia um desserviço nefasto promovido pela quadrilha do PT pilhando o Brasil e brasileiros. Parabéns ao autor.

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