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Truculência fecha jornal gaúcho

26/01/2012

Por Luiz Cláudio Cunha

O ex-governador gaúcho Germano Rigotto e sua família, enfim, conseguiram: o JÁ, um bravo e pequeno mensário de 5 mil exemplares e 26 anos de vida em Porto Alegre (RS), fechou as portas. Sucumbiu aos dez anos de uma longa, pertinaz perseguição judicial movida pelos Rigotto, que asfixiaram financeiramente um jornal de resistência que chegou a ter 22 profissionais numa redação que hoje se resume a dois jornalistas.

A nota de falecimento do jornal foi dada por seu editor, Elmar Bones da Costa, em amarga entrevista concedida (em 16/1) aos repórteres Felipe Prestes e Samir Oliveira, do site Sul21 (ver aqui). “O caminho natural seria que eu tivesse feito um acordo. Teria resolvido isso e até voltado ao mercado. Mas, eu não tinha feito nada de errado. Fazer um acordo com Rigotto seria trair os próprios princípios do jornal”, explicou Bones, sempre altivo aos 67 anos, com passagens por grandes órgãos da imprensa brasileira (Veja, IstoÉ, O Estado de S.Paulo e Gazeta Mercantil) e pelo comando do CooJornal, o heroico mensário da pioneira Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Na ditadura, Bones enfrentou o cerco implacável da censura e dos militares ao jornal alternativo que incomodava o regime. Na democracia, Bones não resistiu ao assédio sufocante das ações judiciais de Rigotto incomodado pelo bom jornalismo.

Generais e políticos, nos governos de exceção ou nos Estados de Direito, são exatamente iguais quando confrontados com as verdades incômodas que sustentam e justificam a boa imprensa. O JÁ ousou fazer isso, em plena democracia, contando a história da maior fraude com dinheiro público na história do Rio Grande do Sul, que carregava nos ombros o sobrenome ilustre de Germano Rigotto. O seu irmão mais esperto, Lindomar, é o principal implicado entre as 22 pessoas e as 11 empresas denunciadas pelo Ministério Público e arroladas em 1995 pela CPI da Assembleia Legislativa gaúcha que investigou uma falcatrua na construção de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE).

Conversei e tomei um mate com o Bicudo neste final do ano. Somos meio vizinhos na Servidão Dois Irmãos, no Santinho, em Floripa. Ele estava triste. Mas parecia aliviado: “Vou me dedicar aos meus livros, Sampaio”. Elmar Bones é um exemplo de cidadão, um exemplo de jornalista e um dos melhores textos da imprensa brasileira.
Ele me contou de como a redação do jornal foi assaltada por 3 vezes, uma coincidência cruel. E de como a Polícia tratou com leniência esses assaltos.
Fui colega do Elmar na Folha da Manhã e aprendi, com ele e com o Severo, em três meses, mais do que em toda a vida de redação.
Um minuto de silêncio pelo Já. Um semana de absoluto silêncio pela política gaúcha.

Veja entrevista de Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo no Portal 3. 

Veja mais sobre a lenta agonia do jornal Já, em matérias publicadas aqui no Expresso em agosto e janeiro de 2010.



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