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Jabor, um paulistano, fala sobre o gauchismo.

18/09/2011

Este artigo é antigo. Arnaldo Jabor, paulista e paulistano, descreve o sentimento que sempre uniu e une ainda hoje os gaúchos. Nada melhor para comemorar amanhã a data magna da República do Piratini, a década gloriosa em que o Rio Grande foi uma pátria separada do Brasil. Não que o gaúcho tenha qualquer gosto pelo separatismo nos dias de hoje. Nada disso. O Rio Grande quer apenas continuar dando exemplo de igualdade, liberdade e fraternidade, o lema farroupilha. O artigo:

“O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo ressentimentos passivos. Olham o escândalo na televisão e exclamam ‘que horror’. 
Sabem do roubo do político e falam ‘que vergonha’. Vêem a fila de aposentados ao sol e comentam ‘que absurdo’. Assistem a uma quase pornografia no programa dominical de televisão e dizem ‘que baixaria’. Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram ‘que medo’. E pronto! 
Pois acho que precisamos de uma transição ‘neste país’. Do ressentimento passivo à participação ativa’. Pois recentemente estive em Porto Alegre, onde pude apreciar atitudes com as quais não estou acostumado, paulista/paulistano que sou. 
Um regionalismo que simplesmente não existe em São Paulo que, sendo de todos, não é de ninguém. No Rio Grande do Sul, palestrando num evento do Sindirádio, uma surpresa: abriram com o Hino Nacional. Todos em pé, cantando. Em seguida, o apresentador anunciou o Hino do Estado do Rio Grande do Sul. 
Fiquei curioso. Como seria o hino? Começa a tocar e, para minha surpresa, 
todo mundo cantando a letra! 
‘Como a aurora precursora / 
do farol da divindade, / 
foi o vinte de setembro / 
o precursor da liberdade ‘
Em seguida um casal, sentado do meu lado, prepara um chimarrão. Com garrafa de água quente e tudo. E oferece aos que estão em volta. Durante o evento, a cuia passa de mão em mão, até para mim eles oferecem. E eu fico pasmo. Todos colocando a boca na bomba, mesmo pessoas que não se conhecem. Aquilo cria um espírito de comunidade ao qual eu, paulista, não estou acostumado. 
Desde que saí de Bauru, nos anos setenta, não sei mais o que é ‘comunidade’. Fiquei imaginando quem é que sabe cantar o hino de São Paulo. Aliás, você sabia que São Paulo tem hino? Pois é…Foi então que me deu um estalo. Sabe como é que os ‘ressentimentos passivos’ se transformarão em participação ativa? 
De onde virá o grito de ‘basta’ contra os escândalos, a corrupção e o deboche que tomaram conta do Brasil? De São Paulo é que não será. 
Esse grito exige consciência coletiva, algo que há muito não existe em São Paulo. 
Os paulistas perderam a capacidade de mobilização. Não têm mais interesse por sair às ruas contra a corrupção. São Paulo é um grande campo de refugiados, sem personalidade, sem cultura própria, sem ‘liga’. Cada um por si e o todo que se dane. E isso é até compreensível numa cidade com 12 milhões de habitantes. 
Penso que o grito – se vier – só poderá partir das comunidades que ainda têm essa ‘liga’. A mesma que eu vi em Porto Alegre. 
Algo me diz que mais uma vez os gaúchos é que levantarão a bandeira. Que buscarão em suas raízes a indignação que não se encontra mais em São Paulo. 
Que venham, pois. Com orgulho me juntarei a eles.
De minha parte, eu acrescentaria, ainda: 
‘…Sirvam nossas façanhas, de modelo a toda terra…’
Arnaldo Jabor.

Ilustração da bandeira gaúcha: Fallavena.

 

6 Comentários leave one →
  1. ZEBUSSA permalink
    18/09/2011 19:37

    Se o vento do Guaíba revoltar-se e bufar com força contra a safadeza, a imoralidade, a perversão, o descalabro que tomou conta de alguns setores da sociedade nacional (entendam, políticos que apropriaram-se do que é nosso!) serei um dos primeiros a inflar os pulmões e respirar seu ar marejado.
    E ouso dizer: usaria bombachas e lenço no pescoço, enfileirando-me neste movimento pela reabilitação da integridade nacional.
    Sim, ora pois, admiro o “patriotismo gaúcho”!
    Além, é claro, de suas lindas meninas!
    (Menos as de Pelotas!!!)

  2. Lorena Schneider permalink
    18/09/2011 23:27

    É verdade! Que lindo este texto do Jabour! Eu também estarei nestas fileiras!

  3. Ayalla permalink
    24/09/2011 22:16

    Se é do Jabor porque não diz que ele é Carioca e não Paulista?????

  4. Eunice Aubin Rosário permalink
    17/04/2012 17:19

    Bah Jabor! Acredito que parte da culpa de todo o país ter um povo tão passivo são dos psiquiatras, psicanalistas e psicólogos. As pessoas estão cada vez mais largando suas vidas nas mãos desses profissionais. Hoje homens e mulheres falam com a maior naturalidade que tomam remédios com tarja preta. Isso para ficarem calmos e não se indignarem com as injustiças que vêem e sofrem diariamente. Creio que o efeito desses remédios nas pessoas é deixá-las muito passivas. Por isso os escravos de medicações só falam, comentam, dizem e choram. Eles não gritam, brigam, lutam e combatem. A saúde uma porcaria, descaso total com os idosos, políticos roubando o nosso dinheiro e etc. Parece que está tudo bem e ninguém se importa.
    Agora é moda e conveniente para políticos e empresários: estar sempre sorrindo, está sempre tudo bem e nunca mal humorado. Qualquer manifesto de indignação de uma pessoa com alguma injustiça: Tá louco!
    Será que as Sociedades de Psicanálise têm um acordo com governantes, empresários e a indústria farmacêutica? Que tal transformá-los em robozinhos da sociedade.
    Eu como boa gaúcha gosto de pelear!
    Sou sua fã. Um grande abraço,
    Eunice Aubin Rosário.

    • Eunice Aubin Rosário permalink
      17/04/2012 17:33

      Por que moderação?

      • Joana Darke permalink
        10/03/2018 18:14

        Você que precisa de psiquiátrico urgente,atacando as pessoas com perfies fake no facebook.

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