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Será que a burrice é uma ciência?

06/09/2011

“Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia  na  Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai,  o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:  “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência  que  demonstrou  hoje,  deve  ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.  O talento assusta”.

E  ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui no Brasil. Não é demais lembrar a famosa trova de António Alexo, poeta português:

“Há tantos burros mandando em homens de inteligência
que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência.”

Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições.  Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displiscentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por  onde talentosos não conseguem passar. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.

Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida.

É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência,  por medo de perder seus maridos,  também os encastelados  medíocres se  fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.

Eles  conhecem  bem  suas  limitações,  sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas,  os  medíocres  os  repudiam  para  se  defender. É um paradoxo angustiante. Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.

Como é sábio o  velho conselho de Nelson Rodrigues:  finge-te de idiota e terás o céu e a terra.

O problema é que os inteligentes gostam de brilhar. Que Deus os proteja.

Outro problema é que nem sempre o Poder é fruto da inteligência e o mundo vai de mal a pior.

Que Deus nos proteja.”

Este texto está publicado em dezenas de blogs e circula vivamente, sem que se saiba o autor, através de uma corrente de emails. 

3 Comentários leave one →
  1. 06/09/2011 17:36

    Texto sensacional!

  2. Teresa permalink
    06/09/2011 22:36

    Nem todos os inteligentes gostam de brilhar. No mesmo lugar.

  3. Pé-de-Cana permalink
    08/09/2011 14:56

    kkkkkkkk…. Sampaio como sempre, sutil mas AFINADO!

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