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Esclarecida a misteriosa morte de Yves Hublet.

03/11/2010

Cláudio Ribeiro, um leitor do blog, mandou, no dia 30 de outubro, um comentário com um e-mail de Rômulo Marinho, amigo do escritor Yves Hublet, o homem que exemplou José Dirceu com umas bengaladas. O comentário passou despercebido por este Editor e no intuito de se restaurar toda a verdade, publicamos agora, ainda que tardiamente, a íntegra do email de Rômulo, que conta os últimos dias do escritor com detalhes.

“Um mês e pouco antes de sua vinda ao Brasil, o Yves me mandou e-mail ratificando o que me dissera, pessoalmente, quando no ano passado nos encontramos na Espanha-Madrid: que estava pensando em vir ao nosso País no mês de abril, informando também que sua idéia era ficar, primeiro, na casa da nossa amiga Meireluci Fernandes, Presidente do Sindicato dos Escritores de Brasília e depois na minha casa, se pudéssemos hospedá-lo. Pelos seus cálculos seriam apenas de oito a dez dias. Indagou se poderia ficar uns três ou quatro dias na minha casa. Consultada minha mulher, pois ela é quem manda por aqui, esta concordou. Dei-lhe boas vindas. Assim, como planejado, primeiramente ele iria ao Sul, após Rio de Janeiro e, finalmente, Brasília, de onde retornaria a Bélgica. Depois do trecho sulista, no dia 17 de maio, efetivamente, Yves chegou a Brasília e me encontrou hospitalizado, tendo em vista que acabara de implantar dois stents. Assim que chegou ligou para minha casa e, informado onde estava, telefonou ao hospital me dizendo que a Meireluci receberia parentes em sua casa naquela semana e perguntando se poderia ir logo para a minha residência. Disse que sim e autorizamos nossa empregada a recebê-lo, uma vez que minha mulher me acompanhava. Vim encontrá-lo três dias depois, quando sai do nosocômio. Ao chegar à minha casa logo nos sentamos na varanda para colocar nossos assuntos em dia e saber das novidades.
Conversávamos muito sobre política. Foi quando percebi que ele não estava bem de saúde, eis que durante nossa conversa, num pequeno espaço de tempo, levantou-se duas vezes para ir ao banheiro. Na terceira vez, perguntei se ele estava com algum problema intestinal. Ele respondeu-me que sim, que estava com uma pequena hemorragia retal e que vinha tomando remédio. Preocupei-me com o amigo e disse que ele deveria fazer uma consulta, oferecendo-me para levá-lo a um hospital publico, uma vez que ele não possuía no Brasil qualquer convênio de assistência médica. Ele me disse que não me preocupasse, que quando chegasse a Bélgica iria se tratar, pois já estava com passagem marcada para 27 de maio.
Durante esse período, passou o primeiro fim de semana na casa da Meireluci. Quando retornou, percebi que suas idas ao banheiro estavam aumentando. Ainda na minha casa, após me consultar e obter minha anuência, ele foi a um depósito público onde deixara guardados livros, objetos, escritos, lembranças e pequenos bens materiais, antes de se transferir para o país citado. Passou alguns dias na minha varanda examinando tudo e separou parte de sua biblioteca para doar ao Açougue Cultural (T-Bone), vendeu outros para um interessado e, uma grande quantidade (umas cinqüenta caixas) pediu-me para deixar guardada em minha casa durante algum tempo e se ele não pudesse levá-los a curto prazo, eu poderia doá-los, que é o que pretendo fazer nos próximos dias.

Doou, ainda, ao meu neto Dedé um pequeno violão (de grande valor sentimental para ele), com algumas ?escoriações?, que ele ganhou de presente quando tinha oito anos de idade, instrumento esse que, quando há duas semanas fui passear em São Paulo (Serra Negra), entreguei a Di Giorgio para integral reforma. Trata-se uma peça antiga que muito aprecio.

Finalmente no dia 27 de maio, por volta das 17 horas, levei-o ao aeroporto de Brasília para seu retorno. Lamentável e surpreendentemente, duas horas após lá deixá-lo, recebi dele telefonema me informando que havia sido preso pela Polícia Federal. Indaguei a razão e ele me informou que, como colecionador de armas tinha uma espingarda e um revólver (que também estavam em Brasília no depósito), ambas com registros não atualizados, pois quando do advento da lei de recadastramento ele já vivia na Bélgica) e pretendia levá-las. Simplesmente colocou-os na mala que despachou. Dá para acreditar? Fiquei perplexo com esse proceder, mas, como diz minha mulher, que fez bela oração para ele no sepultamento, ?artista tem razões que a própria razão desconhece? e ela sabe do que está falando, pois é casada comigo e mãe de ator. Eu e mais dois amigos procuramos ajudá-lo, mas foi em vão. O inquérito já estava instaurado e o passaporte apreendido. Iria para a Papuda, mas o juiz, em face sua idade e de não estar configurado dolo na ocorrência ? ou seja lá o motivo que for ? relaxou sua prisão e ele voltou para minha casa seis dias após o fato, onde ficou mais uns vinte e poucos dias, sempre piorando de saúde, mas resistindo ao tratamento ou internamento hospitalar..

Quando finalmente conseguimos interná-lo, eu e o amigo José Carlos Brito, marido da Meire, no Hospital da Asa Norte, HRAN de Brasília, com ajuda do SAMU e não de policiais, passado tão-somente um dia, ele pediu, sem nos consultar, alta ao médico. Retornou a minha casa após a alta e foi ao cinema (sua grande paixão) no Píer 21. Seu estado de saúde continuou piorando, até que, novamente com auxílio do Brito, o intimei.  Sim, embora intimamente lamentasse, o intimei, fomos duros,  a se internar novamente e tratar-se, o que de fato ocorreu no dia 3 de julho. Dessa vez ele fez todos os exames que necessitava e foi trágico o diagnóstico: um câncer no reto, que logo entrou em metástase. Sempre que possível, nesse período, fazíamos visita de atenção ou para responder pequenas solicitações dele. No dia 26 de julho ocorreu óbito. O sepultamos dia 30. Aí estão os fatos, a verdade. Hoje, em face do despacho das armas na mala e da resistência ao tratamento e internamento, posso concluir, serenamente, um pouco triste pela intimação que relatei, sobre o que acontecia na brilhante cabeça do caro amigo, ator e escritor, Yves Hublet: ele veio do exterior já sabedor de que o fim estava às portas. Conscientemente ou não, jamais quis retornar ao isolamento da terra estranha. Não obstante, ultimamente, ele viesse com insistência dizendo-se belga, na verdade ele amava demais o Brasil e sua gente para viver tão longe deles.

Esses são os fatos, a verdade, o resto é mentira ou fofoca.”

5 Comentários leave one →
  1. MARIO permalink
    03/11/2010 8:37

    Estranhamente Yves no momento das bengaladas representou o Brasil melhor que qualquer brasileiro. Qualquer vida que se vai é uma perda irreparavel. Ninguem é insubstituivel, porem quando partimos, fazemos falta para um, para outro, para uns, para outros.

  2. Terezinha de Jesus Araujo permalink
    10/07/2012 16:18

    Realmente aplaudo a indignação do Yves que representou a maioria dos “honestos” cidadãos brasileiros e mesmo com todo o atraso desejo que descanse em paz.

  3. 08/10/2012 15:04

    Ele é meu Herói, não só por sua obra mas pelo belo exemplo que deu, simbólicamente, claro, de que como deve se castigar os malfeitores, no caso, da Pátria que ele tanto amava e aonde escolheu para viver seus últimos dias. Esteja em Paz.

    • 11/08/2013 21:01

      Esta história contada pelo Claudio Ribeiro é uma farsa. Cláudio é petista com o dever de defender Zé Dirceu. Quando Yves esteve em Curitiba, antes de ser preso em Brasília, conversou comigo e estava muito bem, aliás como sempre, desde que nos conhecemos.
      Quem assassinou o escritor? É isto que queremos saber, nós da ACPAI (Associação Cultural Paranaenses de Autores Independentes). Quem matou nosso confrade?

  4. Eliete Xavier permalink
    06/06/2017 17:12

    Grande Yves Hublet, assim como como Carlos Zatti, acho essa ‘estória” uma farsa. A verdadeira “história”, só os amigos sabem!

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